terça-feira, 2 de junho de 2015

Virtudes e Felicidade em Aristóteles

Felicidade e Virtude em Aristóteles


Como, ao que parece, há muitos fins e podemos buscar alguns em vista de outros: por exemplo, a riqueza, a música, a arte da flauta e, em geral, todos aqueles fins que podem denominar-se instrumentos, é evidente que nenhum desses fins é perfeito e definitivo por si mesmo. Mas o sumo bem deve ser coisa perfeita e definitiva. Por conseguinte, se existe uma só e única coisa que seja definitiva e perfeita, ela é precisamente o bem que procuramos; e se há muitas coisas deste gênero, a mais definitiva entre elas será o bem. Mas, em nosso entender, o bem que apenas deve buscar-se por si mesmo é mais definitivo que aquele que se procura em vista de outro bem; e o bem que não deve buscar-se nunca com vista noutro bem é mais definitivo que os bens que se buscam ao mesmo tempo por si mesmos e por causa desse bem superior; numa palavra, o perfeito, o definitivo, o completo, é o que é eternamente apetecível em si, e que nunca o é em vista de um objecto distinto dele.
  • Eis aí precisamente o carácter que parece ter a felicidade; buscamo-la por ela e só por ela, e nunca com mira em outra coisa. Pelo contrário, quando buscamos as honras, o prazer, a ciência, a virtude, sob qualquer forma que seja, desejamos, indubitavelmente, todas essas vantagens por si mesmas; pois que, independentemente de toda outra consequência, desejaríamos cada uma delas; todavia, desejamo-las também com mira na felicidade, porque cremos que todas essas diversas vantagens no-la podem assegurar; enquanto ninguém pode desejar a felicidade, nem com mira nestas vantagens, nem, de maneira geral, com vista em algo, seja o que for, distinto da felicidade mesma.
(...) Todavia, ainda convindo connosco em que a felicidade é, sem contradita, o maior dos bens, o bem supremo, talvez haja quem deseje conhecer melhor a sua natureza.
O meio mais seguro de alcançar esta completa noção é saber qual é a obra própria do homem. (...) Viver é uma função comum ao homem e às plantas, e aqui apenas se busca o que é exclusivamente especial ao homem; é por isso necessário pôr de lado a vida de nutrição e de desenvolvimento. Em seguida vem a vida da sensibilidade, mas esta, por sua vez, mostra-se igualmente comum a todos os seres - o cavalo, o boi, e em geral a todos os animais, tal como ao homem. Resta, portanto, a vida activa do ser dotado de razão. Mas neste ser deve distinguir-se a parte que não possui directamente a razão e se serve dela para pensar. Além disso, como esta mesma faculdade da razão se pode compreender num duplo sentido, devemos não esquecer que se trata aqui, sobretudo, da faculdade em acção, a qual merece mais particularmente o nome que a ambas convém. E assim o próprio do homem será o acto da alma em conformidade com a razão, ou, pelo menos, o acto da alma que não pode realizar-se sem a razão. (...) Mas o bem, a perfeição para cada coisa, varia segundo a virtude especial dessa coisa. Por conseguinte, o bem próprio do homem é a actividade da alma dirigida pela virtude; e, como há muitas virtudes, será a actividade dirigida pela mais alta e a mais perfeita de todas. Acrescente-se também que estas condições devem ser realizadas durante uma vida inteira e completa, porque uma só andorinha não faz a Primavera, nem um só dia formoso; e não pode tão-pouco dizer-se que um só dia de felicidade, nem mesmo uma temporada, bastam para fazer um homem ditoso e afortunado. 

Trabalho sobre Cultura




1-   O que é cultura?

2-   Dê exemplos de como a cultura se manifesta?

3-   Qual a relação entre Símbolos, Normas, Costumes, Valores e a Cultura?

4-   Porque devemos respeitar a cultura dos outros?

5-   Construa um texto narrativo, abordando como tema o respeito a outras culturas. (a proposta é que você construa uma história com esse tema).

6-   Você é capaz de assumir sua cultura em meio a um ambiente contrário ao seu?  Ou seja, você é capaz de assumir seus gostos musicais, suas raízes familiares, sua forma de se expressar, de se vestir... Mesmo indo contra o gosto da maioria? Justifique sua resposta em um texto dissertativo com, no MÍNIMO, 15 linhas e  3 ( três ), parágrafos.

7-   É certo afirmar que todos têm cultura ou só tem cultura os que estudam?  Justifique sua resposta em um texto dissertativo com, no MÍNIMO, 15 linhas e 3 ( três ), parágrafos.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Avaliação Cultural

Avaliação Cultural


1.        Qual o seu programa de TV favorito? O que esse programa tem de bom? O que ele te acrescenta?
2.        Qual o tipo de música que você mais ouve?
3.        Qual o seu cantor favorito (a)?
4.        Atualmente qual a música que você mais escuta?
5.        Qual a radio que você mais ouve?
6.        O que você acha de músicas que se utilizam do sexo, violência e apologia a drogas e ao crime como tema?
7.        Qual o tipo de filme que você mais gosta?
8.        Você costuma ir ao cinema? Qual o ultimo filme que você assistiu?
9.        Pipoca e refrigerante combinam com cinema, porque ?
10.     Qual a sua opinião acerca de programas de TV que se utilizam de sexo, violência e baixaria para obterem audiência? Você assiste algum programa desses?
11.     Para você, qual o principal objetivo dos meios de comunicação ( TV, radio, jornais...), informar, entreter ou ganhar dinheiro com as propagandas de produtos ?
12.     Para você, os meios de comunicação manipulam as notícias? Para melhor responder a questão anterior , pesquisem na internet os seguintes temas: A relação entre a rede globo e o ex-presidente Fernando Collor e a manipulação do debate eleitoral entre Collor e Lula em 1989. E a relação entre a revista veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O objetivo é verificar se, nesses casos houve manipulação da mídia.
13.     Os programas que você assiste, as músicas que você ouve, são escolhidos livremente por você ou, você se deixa levar pelo que a maioria ouve e vê?
14.     Você costuma compras os produtos que vê nas propagandas veiculadas nos meios de comunicação?
15.     O que você acha das pessoas que compram produtos só de marca ou que são anunciados por pessoas famosas? Você compraria um produto de marca desconhecida ou que não apareça na TV, mas que tenha a mesma qualidade do produto de marca?
16.     Qual foi a ultima vez que você ao museu?
17.     Quantos livros você já leu, qual foi o ultimo?
18.     Você já foi a alguma exposição de arte, qual foi a ultima?
19.     Já foi ao teatro, qual a ultima vez, qual peça assistiu?
20.     Quanto tempo em media você fica na internet? O que você mais acessa?
21.     Você concorda com a frase: “Nos somos o que lemos, assistimos e ouvimos”. Justifique sua resposta.
22.     O que você anda ouvindo, vendo e lendo tem qualidade, tem te tornado uma pessoa, um aluno, um filho... melhor?
23.     Depois de responder a essas questões, você acha que o seu nível cultural é bom, o que precisa melhorar? Comente sua resposta num texto dissertativo com 20 linhas.


Política: Pesquisa de Campo

Política para quê?

Política; essa é uma palavra que a maioria dos jovens, e dos adultos também, nem querem ouvir falar. Isso é em certa parte compreensível, afinal a mídia nos trás sempre as mazelas que os políticos nos causam e parece que só tem gente querendo levar vantagem pessoal, ao invés de servir o povo e melhorar a vida das pessoas. Mas antes de fazer um julgamento incorreto acerca do que seja política, você sabe o que ela é e para que serve? Já parou para pensar como ela surgiu? É o que vamos estudar a partir de agora.
Política vem do grego pólis que significa cidade. Logo, a política diz respeito às coisas da cidade. E quem vive na cidade são pessoas que juntas formam o que chamamos de sociedade. Ou seja, a sociedade é um grupo ou vários grupos que vivem juntos numa polis (cidade).
Política e o poder
A política é a arte de administrar poderes. Poder é ter a capacidade, a força para fazer algo. Na vida em sociedade todos temos poder. O médico tem o poder de curar as doenças, o professor tem o poder de lecionar, ensinar; o aluno tem o poder de apreender, os pais têm o poder de educar os filhos. Mas esses poderes trazem consigo responsabilidades. Quando o poder é exercido de forma irresponsável as pessoas e, toda a sociedade sofre.
Na vida social quando as pessoas não utilizam de forma responsável e racional seus poderes há um desequilíbrio de forças. O mais forte pode roubar, matar, extorquir, oprimir o mais fraco. É o que chamamos de injustiça. Para que isso não ocorra existe a política.
É através dela que a sociedade equilibra as forças entre os seus membros. Como isso ocorre?
As pessoas juntas elaboram regras para toda a cidade. Regras que todos têm que cumprir. O objetivo dessas regras é atender as necessidades de todos os membros da sociedade. Fazendo com que não aja injustiça e desequilíbrio entre os cidadãos. A política equilibra as forças. Faz com que as pessoas exerçam com responsabilidade seus poderes.

A política diz respeito a todos nós

Aristóteles (382- 324 a.C) filosofo grego, dizia que o ser humano é um animal político por natureza. Dizia isso porque entendia a política como a arte de viver junto. Para Aristóteles o ser humano nasceu para viver em sociedade. E é na sociedade que ele encontra tudo que precisa para ser feliz, que é o fim último do homem. Portanto, a política como arte de viver junto, diz respeito a todos nós.
Todos nós somos políticos, porque todos nós exercemos sobre os outros poderes .Nós influenciamos a vida dos outros e os outros influenciam a nossa vida. Uma definição prática para o que política é a seguinte: Política é a forma racional que os homens têm de organizar a vida social.
Há uma relação intima entre política, ética e virtude. Não há como viver em sociedade sem virtudes, sem buscar e desejar o bem, bem esse que não são os materiais e sim os da alma, aqueles que nos tornam pessoas melhor, ou seja, os valores morais. Se somos virtuosos, somos também éticos. Porque não há virtude sem ética, ou seja, sem busca o bem do outro, o bem da sociedade como um todo. E, se somos éticos, somos também políticos, porque exercemos o nosso poder de forma responsável e equilibrada.

Política e formas de governar a sociedade ( Estado )
Antes de falar em formas de governo é importante entender o que é o Estado. O Estado nada mais é que a figura abstrata, jurídica da sociedade. Ele existe na forma de leis e normas que regem a vida social: o Brasil é um Estado. Estado brasileiro é uma república democrática presidencialista. Vamos entender melhor o que isso significa?
Governar significa administrar, reger, dirigir algo, ter autoridade sobre. A sociedade, a pólis, precisa ser governada, e ao longo do tempo surgiram várias formas de governar a cidade, a sociedade. Dentre elas destacam-se: A aristocracia, onde os melhores governam; A timocracia, onde os mais ricos governam; A teocracia, onde os governantes são representantes divinos; A Monarquia, onde um monarca ( rei ) governa; Despotismo onde um homem comum governa sozinho; Republica onde o povo, através da democracia escolhe o governante. Como o Brasil é uma republica democrática, nós vamos entender um pouco o que é, como ocorre essa forma de governar.
Republica vem do latin = Res Publica ou Coisa Publica, que é de todos, pertence a todos. Seus governantes são escolhidos através da democracia que significa poder para o povo. A democracia é exercida de várias formas, uma delas é a escolha de representantes para governar a sociedade. Esses representantes, como o próprio nome diz, governam em nosso nome, as decisões deles são decisões nossas também. Nós somos responsáveis por todas as atitudes deles. Portanto, se faz necessário pensar bem antes de votar em alguém. Esse alguém será como nós mesmos.
Se somos éticos, virtuosos, e bons políticos, devemos escolher nossos representantes tendo como base esses requisitos. Não adianta votar em qualquer um, a não ser que você seja qualquer um também. Afinal, ladrão, corrupto, desonesto, vota em ladrão... Os políticos que temos mostram quem somos. Se somos honestos e éticos, votamos em gente honesta e ética. Se não somos, votamos em qualquer um, sem pesquisar a vida do candidato, sem saber a que partido pertence. Sem saber quais as propostas. Sempre com a velha desculpa de que todos são iguais e que todos roubam.
Isso é mentira. Assim como existem bons e maus professores, alunos, médicos, pedreiros, vendedores etc., Existem bons e maus políticos. O que falta é um pouco de consciência e inteligência, isso no Brasil poucos tem, por isso é mais fácil se esconder atrás das velhas desculpas esfarrapadas. As desculpas, são a melhor forma de disfarçar a ignorância. É mais fácil se esconder do que participar. E depois, é só colocar a culpa nos maus políticos que nós mesmos elegemos. Quem não participa da vida política do pais não tem o direito de reclamar. Vocês que um dia vai votar e os que já votam pensem nisso. 

Reflexões sobre Filosofia Política

1-O que é política?
4-O que é poder e qual sua ligação com a política?
87-Qual a relação entre virtude, ética e política?
48- Quais as principais formas de governo, e, se você pudesse escolher qual seria a melhor? Explique-se.
34- O Brasil viveu entre 1964 e 1987 um regime de governo em que as pessoas não podiam influenciar nas decisões, qual regime era esse? Qual a sua opinião sobre essa forma de governo?
90- Depois dessa fase o Brasil entrou na democracia. O que é a democracia? Como ela funciona? Essa é a melhor forma de governo? Justifique sua resposta.
76- “Na vida social quando as pessoas não utilizam de forma responsável e racional seus poderes há um desequilíbrio de forças. O mais forte pode roubar matar, extorquir, oprimir o mais fraco. É o que chamamos de injustiça. Para que isso não ocorra existe a política”. A partir dessa parte do texto, faça a seguinte reflexão: Afinal, para que serve a política e porque todos a acham uma coisa ruim? Justifique sua resposta em 4 parágrafos.
5- “Todos nós somos políticos, porque todos nós exercemos sobre os outros poderes. Nós influenciamos a vida dos outros e os outros influenciam a nossa vida...” Diante disso, como os outros influenciam a sua vida e como você influencia a vida dos outros? Justifique sua resposta com um exemplo.
13-“A política é a forma racional que os homens têm de organizar a vida social”.Com base nisso, responda as seguintes provocações:
a-Como você reagiria diante de um vizinho que ouve música alta?
b- Ao chegar a um hospital e não encontrar um médico que o atenda, qual a sua reação?
c- Ao ver que a praça de seu bairro esta sem iluminação, tomada pelo mato e suja, o que você faz?
45- O voto é somente uma das formas de exercer a democracia, quais são as outras? Explique.
88- “A política equilibra as forças. Faz com que as pessoas exerçam com responsabilidade seus poderes”. Vimos que não há política sem ética, ou seja, sem a busca do bem comum, sem valores morais. Diante disso, qual a relação entre política, ética e a educação na formação de um país mais justa? Justifique sua resposta em 20 linhas.

Pesquisa de campo

23- Responda as seguintes questões e faça uma pesquisa sobre:
23.1- Em quem você votou para: Presidente, Governador, Prefeito, Senador, Deputado Federal, Deputado Estadual, Vereador.
23.2- De que forma você acompanha o mandato dessas pessoas?
23.3- Você sabia que esses políticos agem em seu nome, ou seja, o que eles fazem é responsabilidade sua também?
23.4-Com base no que você vê na mídia, qual a sua impressão sobre os políticos?
23.5- Você se considera um político? Justifique-se.
23.6- Você sabia que todas as redes de televisão são de políticos que exercem o poder ou os que não são políticos são amigos dos governantes, o que você acha disso?
23.7-Você acha que a mídia mostra a verdade sobre o que é política ou ela manipula as informações?

 













   

domingo, 1 de junho de 2014

Paulo Freire

Em conclusão, verifica-se que o método educacional de Paulo Freire está essencialmente vinculado a uma ideologia, isto é, a uma visão filosófica que tende a transformar a sociedade, induzindo nesta uma autêntica subversão. É o próprio Paulo Freire quem o afirma numa entrevista publicada em “Veja” (20/06/79); o repórter aventou a hipótese de que a educação de Freire fosse um método “assexuado”, neutro, descomprometido com qualquer ideologia. Ao que P. Freire respondeu :

“Quem disse isso, ou não entendeu nada ou está de má-fé. Em meu método, parte-se do conhecimento do meio em que se vai desenvolver a experiência de educação. Toma-se em consideração o universo vocabular do grupo em questão, as palavras que são utilizadas todos os dias e que exprimem a vida cotidianas daquelas populações. Desse universo vocabular são escolhidas as palavras geradoras. Estas palavras encontram em si os temas de discussão que deverão corresponder aos interesses dos alfabetizados e deverão constituir o primeiro passo, por meio da discussão em grupo, em direção a uma tomada de consciência individual e coletiva dos problemas discutidos. Esse aspecto puramente mecânico poderá ser utilizado por qualquer pessoa: tirar uma palavra geradora de um universo vocabular também pode ser feito por alguém que pretenda mistificar a realidade e a consciência dessa realidade. De minha parte, o conhecimento de uma realidade, que vai sendo construído pouco a pouco a partir da experiência dos alfabetizandos, está intimamente ligado à consciência crescente da capacidade de mudar essa realidade. Conhecer para transformar, é este o objetivo. O que ficou sendo conhecido como Método de Alfabetização Paulo Freire, não é algo que se possa reduzir a um aprendizado meramente lingüístico. Trata-se de aprender a ler a realidade – conhecê-la – para em seguida poder reescrever essa realidade – transformá-la”.

sábado, 17 de maio de 2014

Diálogos Socráticos

Diálogos Socráticos

Diálogo Socrático
O que é um Diálogo Socrático?
Um Diálogo Socrático é uma sessão de investigação filosófica em grupo na forma de um diálogo orientado por um filósofo, regido por determinadas regras e cujo intuito principal é o de promover o pensamento autónomo e crítico dos participantes.
O objectivo específico de um Diálogo Socráticoé responder a uma pergunta filosófica concreta, através da procura de um consenso em torno dos conceitos que a pergunta nos apresenta. Enquanto procura de um consenso (sempre difícil) um Diálogo Socrático é uma actividade cooperativa entre pessoas com diferentesbackgrounds e experiências de vida. A investigação começa, exactamente, por relatos de experiências concretas dos participantes que o grupo considere relevante para a pergunta que temos à nossa frente. Desta forma, partindo do concreto e sempre regressando ao concreto, evitamos a abstração excessiva, comum a muitos debates filosóficos. Ao pensar as nossas experiências e ao confrontar os nossos pensamentos mais abstractos com as nossas experiências estamos a seguir à risca o ensinamento de Kant de que “não podemospensar nenhum objecto que não seja por meio de categorias (conceitos); não podemosconhecer nenhum objecto pensado a não ser por intuições correspondentes a esses conceitos.”
Para atingirmos satisfatóriamente esse nosso objectivo (“responder a uma pergunta filosófica concreta”) é necessário que o grupo esteja disposto a gastar (ganhar) tempo e a entregar-se de forma honesta e persistente à discussão cooperativa. Essa persistência e compromisso com a verdade (e não com o nosso ego ou com uma qualquer agenda escondida) são condições essenciais para que se consiga clarificar e compreender as várias definições e argumentos que vão surgindo durante o diálogo. Só dessa forma seremos capazes de aprofundar filosóficamente as experiências quotidianas relatadas pelos participantes.
Sendo o objectivo específico de um Diálogo Socrático encontrar uma resposta consensual a uma pergunta não devemos, porém, ficar desapontados quando isso não acontece. A própria experiência do diálogo, o esforço honesto que os participantes colocaram nessa experiência de pensamento cooperativo é extremamente recompensadora e, em alguns casos pode ter um enorme significado nas vidas das pessoas que por ela passaram. Um Diálogo Socrático tem outros objectivos gerais bem mais importantes que o de atingir um consenso face a uma pergunta filosófica qualquer. Num Diálogo Socrático cultivam-se virtudes como o respeito, o saber ouvir, aceitar críticas às nossas posições, a aceitar o erro como natural a qualquer empreendimento humano, a aprendizagem com os outros e com as experiências do outros. Numa palavra, num verdadeiro Diálogo Socráticocultivamos a nossa humanidade.
Procedimentos e regras de um Diálogo Socrático
- Deve começar com uma pergunta geral, clara e bem formulada (sugerida pelo grupo ou pelo moderador).
- Devem ser pedidos aos participantes relatos breves de experiências pessoais relevantes para a pergunta.
- O grupo escolhe um exemplo.
- A análise dos vários exemplos deve ser feita por escrito.
- Os participantes devem procurar ser o mais claros e concisos possível. Não se devem concentrar apenas nos seus pensamento mas devem ouvir e procurar compreender totalmente as ideias e argumentos dos outros.
- A persistência é importante. Não se deve avançar enquanto houver algum ponto da discussão pouco claro para alguém.
- Os participantes devem fundamentar os seus argumentos e proposições abstractas em exemplos concretos.
- A principal tarefa do moderador é ajudar o grupo no processo de clarificação das diferentes posições. Não deve dirigir a sessão em questões de conteúdo. A partir do momento em que o faça está a pensar pelo grupo (aproveitando-se até da sua posição de autoridade face a este) e isso é o contrário do que um Diálogo Socráticoquer promover: o pensamento autónomo e crítico dos participantes.
Diálogo Socrático sobre A Beleza (132º Café Filosófico)
- Diálogo Socrático com crianças (10-12 anos) – “O que é a independência?”
- Diálogo Socrático com crianças (6-9 anos) e pais – “O que é a beleza?”
Diálogo Socrático XI “O que é a beleza?”
Diálogo Socrático VIII - “O que é a solidariedade?”
- Diálogo Socrático VII – “O que é a liberdade?
Diálogo Socrático VI – “O que é o equilíbrio?”
Diálogo Socrático V – “O que é a verdade?”
Diálogo Socrático IV – “Quando é que a segurança limita a liberdade?”
Diálogo Socrático III – “Quando é que a fuga é uma fraqueza?”
Diálogo Socrático I – “O que é a transparência?”

2 Comentários»

  O QUE É A SOLIDARIEDADE? « Filosofia Crítica wrote @ 
[...] com grande satisfação que publico aqui o resultado do Diálogo Socrático que moderei no Café Filosófico de hoje [...]
  adalto jonas fedalto wrote @ 
MEU DIALOGO SOCRÁTICO SOBRE A FELICIDADE: O professor chega na sala de aula, e propõe aos alunos uma aula diferente, uma aula onde todos irão participar e dar as suas opiniões. O tema é o conceito de felicidade
- John, para você o que felicidade? Pergunta o professor.
- Para mim a felicidade é o que sentimos quando de bom acontece conosco ou com quem amamos! Responde John.
- E você já teve essa sensação? A felicidade? Poderia nos contar?
- Sim, minha irmã passou na faculdade esse ano, isso não fez diferença para mim, mas para ela sim e, só o fato dela estar feliz por algo muito bom ter acontecido com ela eu também fiquei feliz.
- Bom, muito bom, mas vamos ver o que os seus colegas acham. Andreia, para você o que é felicidade? E se já teve compartilhe com todos.
- Em minha opinião, a felicidade é um sentimento que todos nós deveríamos ter todos os dias com todas as pessoas. Ser uma pessoa feliz faz muito bom para a vida, nos acalma, alegra e nos faz seguir enfrente. Um dia eu fiquei muito feliz, foi quando meu namorado me pediu em namoro no natal, na frente de todos nossos amigos e da minha família.
- Professor, professor, eu tenho outra opinião. – Disse o Lucas.
- Então compartilhe com seus colegas.
- Felicidade não é um sentimento, é só uma sensação de bem estar quando tudo em nossa vida está em ordem, quando nada de ruim está acontecendo, é uma ideia que criamos em uma condição de bem estar.
- Hum! Bom argumento Lucas. Mas como podemos ser feliz?
- Eu acho que só podemos ser feliz quando todos que estão em nossa volta também estão felizes, pois quem não se alegra com a alegria daqueles que o rodeiam é egoísta, e o egoísta nunca será feliz. – Falou Beatriz do fundo da sala.
- Muito bom, então nessa aula descobrimos que a felicidade é um sentimento que temos quando algo de bom nos acontece, que ela é importante para nosso bem estar e devemos compartilha-la com outras pessoas e, que, ela pode ser uma ideia que criamos só pelo fato de nossa vida estar em ordem e que aquele que não fica feliz pelo seu próximo também não pode ser feliz.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Só tem político ladrão?


O nosso grande problema é confundir administrador público com político; políticos, somos todos nós. Esses camaradas são nossos representantes e nós temos responsabilidade sobre eles. Nós colocamos, nós...

Tem horas que a gente se pergunta: porque é que não se junta tudo numa coisa só?

A política é a forma racional que o homem encontrou de viver junto. Contudo, o homem esta cada dia mais só, distante, isolado. Fechado em um mundo paralelo: o egoismo. Essa música fala sobre a necessidade de estar juntos, de nos ajudarmos, de com- viver.



terça-feira, 15 de abril de 2014

O ESTADO

A FILOSOFIA POLÍTICA MODERNA
E O CONCEITO DE ESTADO


Sílvio Gallo  


1. O Estado Moderno

Em uma pesquisa antropológica visando encontrar as condições de formação do Estado,  buscando suas relações intrínsecas e extrínsecas com a organização humana, assim Lawrence Krader define
essa instituição política:

          "Na organização do Estado, o homem concentra seu poder sobre o homem em um  único cargo oficial. O monopólio da força física de que goza esse cargo é absoluto.  Pode, sem dúvida, canalizar seu poder mediante delegação específica; nos demais  casos, e desde que o Estado não seja derrubado, esse poder continua  a disposição da  autoridade  central. Em mãos do Estado o poder adota diversas formas e no uso de  suas atribuições pode proibir, matar, encarcerar, escravizar, multar. Mas as forças do  Estado não têm projeções meramente negativas. O Estado se apóia nas forças  integradoras da sociedade: o amor, a lealdade, a dependência recíproca, a fé religiosa,    a tradição e a força do costume.

          "Além disso, o Estado é uma autoridade central (monarca, presidente) com poder sobre uma população que vive dentro de um território determinado; mas é mais que uma unidade física, territorial ou legal; o poder político central transforma a unidade nacional, a representação, a defesa e o controle dessa unidade em uma ideologia. A invasão  do território de um Estado supõe uma dupla ameaça: de um lado a invasão diminui a área geográfica do Estado, e de outro, diminui o âmbito da autoridade  central e, portanto, o poder de que desfruta. Quando está em perigo a extensão geográfica de um Estado, se vê igualmente ameaçada a ideologia da unidade do Estado, o território do Estado e o povo. A lealdade ao Estado se baseia, em parte, na  aceitação de seu poder e na fé neste poder. A debilidade pode ser uma ameaça para essa fé ou, pelo contrário, pode ser que a debilidade do poder atraia para ele mais adesão do que nunca. Mas, em qualquer caso, o povo reage ao Estado e ao seu  destino, e não apenas à mera perda de população, território ou riqueza." 1

Podemos perceber, assim, que a institucionalização do Estado baseia-se em características básicas do homem enquanto indivíduo, para fazer dele membro efetivo de uma comunidade. Tal abertura política faz-se de tal maneira, que o membro de uma comunidade centralizada em um Estado é capaz de abdicar de si mesmo para defender não apenas as realidades que este Estado representa (o território, a riqueza ou a população) mas também a própria abstração da potência de todos centralizada em um único aparato político, o Estado enquanto tal.  Historicamente, vemos que o Estado, se não esteve sempre presente na organização humana 2, é uma constante à medida em que cresce o grau de abrangência populacional e conseqüente complexidade das organizações. Claro que assume as mais variadas formas, de acordo com as condições de cada tempo e lugar, dos Estados teocráticos e centralizados da antiguidade oriental aos Estados democráticos e mesmo totalitários de nossos dias. O fato é que o Estado tal qual conhecemos hoje, embora guarde profundas semelhanças com instituições políticas antigas, é fruto de um processo de formação que se inicia no final da Idade Média, com a dissolução do Estado teocrático feudal. Daremos ênfase aqui, muito mais conceitual do que histórica, àquele que convencionou-se chamar de Estado Moderno.

Entretanto, mesmo o Estado moderno apresenta variações, e o que conhecemos hoje é resultado de um processo de desenvolvimento ao longo dos séculos. O historiador alemão Werner Naef identifica três grandes tipologias no processo de desenvolvimento do Estado moderno: a primeira delas seria o Estado estamental, predominante durante os séculos XV e XVI, responsável pela concentração dos poderes políticos; a segunda seria caracterizada pelo Estado monárquico absoluto, que predomina nos séculos XVII e XVIII e representa uma segunda onda de centralização do poder, agora unicamente nas mãos do monarca; a terceira grande tipologia do Estado moderno é representada pelo Estado democrático, que começa a surgir com a Revolução Francesa e consolida-se com a fixação dos direitos do homem e do cidadão 3.

No aspecto conceitual que nos interessa mais diretamente, o Estado moderno dominou as preocupações filosóficas durante séculos, sensibilizando pensadores do calibre de Maquiavel e de Marx, por exemplo. De acordo com Norberto Bobbio, a filosofia política moderna e suas concepções de Estado e sociedade podem ser agrupadas em duas grandes vertentes, o modelo jusnaturalista e o modelo hegelo-marxiano, que se contrapõem um ao outro.

O jusnaturalismo abarca de Hobbes a Rousseau, passando por Locke, Spinoza e Kant; o modelo hegelo-marxiano, por sua vez, como já acena o próprio nome, abarca duas perspectivas que, mesmo sendo a segunda uma inversão da primeira, guardam entre si a identidade estrutural.

O que caracteriza o modelo jusnaturalista é, antes de tudo, o seu objetivo de desenvolver uma
teoria racional do Estado; se o modelo tradicional de concepção política que remonta a Aristóteles explicava o Estado como uma construção histórica, partindo de círculos menores (família, aldeia) para círculos cada vez mais abrangentes (a Pólis) que culminam no Estado, que é a forma mais perfeita de organização, os jusnaturalistas vão se dedicar a uma reconstrução racional, buscando hipóteses de trabalho que permitam a percepção do sentido do Estado. Assim, ele aparece como a reunião de muitos indivíduos que formam um indivíduo único, com uma única vontade, expressão da vontade geral:

          "O Estado não é como uma família ampliada, mas como um grande indivíduo, do qual são partes indissociáveis os pequenos indivíduos que lhe dão vida: basta pensar na  figura posta no frontispício do Leviatã, na qual se vê um homem gigantesco (com a coroa na cabeça e, nas duas mãos, a espada e o báculo, símbolo dos dois poderes), cujo corpo é composto de vários homens pequenos. Rousseau expressa o mesmo conceito ao definir o Estado como o 'eu comum', imagem muito diversa da de 'pai comum'. Na base desse modelo, portanto, está uma concepção individualista do Estado, por um lado, e, por outro, uma concepção estatista (que significa racionalizada) da sociedade. Ou os indivíduos sem Estado, ou o Estado composto apenas de indivíduos. Entre os indivíduos e o Estado, não há lugar para intermediários. E também essa é uma extrema simplificação dos termos do problema, à qual conduz inevitavelmente uma constituição que quer ser racional e, enquanto tal, sacrifica em  nome da unidade as várias e diferentes instituições produzidas pela irracionalidade da história; mas é também, ao mesmo tempo, o reflexo do processo de concentração do poder que marca o desenvolvimento do Estado moderno. Uma vez constituído o Estado, toda outra forma de associação, incluída a Igreja, para não falar das corporações ou dos partidos ou da própria família, das sociedades parciais, deixa de ter qualquer valor de ordenamento jurídico autônomo." 5

O ponto chave do modelo jusnaturalista é o da legitimidade do poder político do qual é detentor o Estado; se no modelo aristotélico tradicional a legitimidade vem da natureza (sendo o Estado
resultado do crescimento de esferas sociais menores, desde a família, a legitimidade é dada pelo pátrio poder: o soberano assume para os súditos a figura de pai) agora isso já não é mais possível. Se a legitimidade não é natural, é necessário que se encontre uma forma pela qual ela seja aceita por aqueles que se submetem. Em outras palavras, é necessário que haja um consentimento dos súditos para com a autoridade do Estado:

          "Isso significa dizer que o governante, ao contrário do pai e do dono de escravos, necessita que sua própria autoridade obtenha consentimento para que seja considerada como legítima. Em princípio, um soberano que governa como um pai,  segundo o modelo do Estado paternalista, ou, pior ainda, como um senhor de        escravos segundo o modelo do Estado despótico, não é um governo legítimo e os           súditos não são obrigados a lhe obedecer." 6

A hipótese racional encontrada pelos filósofos deste modelo está na noção de pacto ou contrato social 7. A idéia do pacto entre os indivíduos para constituir o Estado, cada um deles delegando e abdicando de sua própria autoridade em nome da autoridade única do soberano que é, ele próprio, um indivíduo, é o centro das teorias contratualistas do jusnaturalismo. O contrato social marca, fora do tempo e do espaço, a transição do estado de natureza para o estado civil; o contrato social é o pacto civilizador que faz a ponte conceitual entre a barbárie e a civilização.

Antes do Estado não há sociedade 8 ; no estado de natureza os homens não passam de indivíduos, não constituem uma comunidade. Em guerra de todos contra todos (Hobbes) ou não (Rousseau), no estado de natureza a articulação social não é possível. Já no estado civil - ou seja, com a instituição do Estado - os homens passam a viver em comunidade, na qual adquirem certos direitos, desde que cumpram seus deveres para com os outros e para com o Estado. Estado de natureza e  estado civil são antagônicos e mutuamente excludentes:

          "Entre os dois estados, há uma relação de contraposição: o estado natural é o estado não político, e o estado político é o estado não natural. Em outras palavras, o estado político surge como antítese do estado natural, do qual tem a função de eliminar os defeitos, e o estado natural ressurge como antítese do estado político, quando este deixa de cumprir a finalidade para a qual foi instituído. A contraposição entre os dois estados consiste no fato de serem os elementos constitutivos do primeiro indivíduos singulares, isolados, não associados, embora associáveis, que atuam de fato seguindo  não a razão (que permanece oculta ou impotente), mas as paixões, os instintos ou os  interesses; o elemento constitutivo do segundo é a união dos indivíduos isolados e dispersos numa sociedade perpétua e exclusiva, que é a única a permitir a realização  de uma vida conforma a razão. Precisamente porque estado de natureza e estado civil são concebidos como dois momentos antitéticos, a passagem de um para outro não ocorre necessariamente pela força das coisas, mas por meio de uma ou mais       convenções, ou seja, por meio de um ou mais atos voluntários dos próprios indivíduos interessados em sair do estado de natureza, ou seja, em viverem conforme a razão." 9

O que fundamenta o Estado é, pois, na visão dos jusnaturalistas, o desejo dos indivíduos de viverem de acordo com a razão - o que vai de encontro com sua perspectiva de produzir uma teoria racional do Estado - e não mais de acordo com os instintos, paixões e interesses puramente individuais e egoístas. Acontece que a instituição do Estado traz um sério problema: como conciliar o bem individual da liberdade com a necessária obediência que cada um dos indivíduos deve prestar ao Estado? 10

Vejamos, brevemente, algumas considerações dos principais filósofos jusnaturalistas sobre a
questão. 

Hobbes: O Estado como segurança

Para Thomas Hobbes, o primeiro grande filósofo contratualista, essa questão não se coloca: o indivíduo assume uma renúncia quase total11 , prestando obediência ao soberano instituído pelo pacto em nome de sua segurança. Tal abdicação da liberdade deve-se à concepção de Hobbes do estado de natureza: a guerra total, a luta generalizada (bellum omnium contra omnes), que dá-se por ser o homem, naturalmente, o lobo do homem (homo homini lupus).

A reflexão do filósofo é bastante curiosa: por natureza, todos os homens são absolutamente iguais, nada há que os diferencie e, portanto, um jamais poderá ter poderes sobre os outros12 : dessa igualdade total advém a desconfiança e, dela, a guerra. A guerra decorre do fato de que um indivíduo precisa atacar o outro, seja para vencê-lo seja para evitar, de antemão, que seja por ele atacado. Numa tal situação, a guerra que, em princípio é racional, torna-se absurda, pois não há vencedor(es) possível(eis). Numa tal guerra não existem também injustiças, posto que onde não impera a lei não é possível a definição do que é justo; ainda por outro lado, neste estado de natureza a propriedade tampouco é possível, pois não há como conseguir e defender coisas em meio a uma guerra de todos contra todos. Assim, determinadas paixões humanas fazem com que a razão institua o Estado13.

É no capítulo XVII do Leviatã que Hobbes define a constituição do Estado através de um pacto
entre os indivíduos no qual eles consentem em abdicar de suas vontades e liberdade individuais em nome da vontade de um único, que garantirá a paz através da lei e a segurança de todos os súditos. O homem não é um animal naturalmente social; a sociedade entre nós é instituída artificialmente e precisa ser artificial e racionalmente mantida: o pacto precisa ser renovado e garantido a cada momento, para que haja sociedade. Daí decorre que o poder político só pode ser mantido através da força. A esse monopólio da força que faz com que a multidão se una num único indivíduo, que garantirá a segurança de todos, Hobbes chama Estado.

          "A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade (...) Feito isso, à multidão assim unida numa só pessoa se  chama Estado, em latim civitas." 14

Assim, o medo da morte e o desejo de posse fazem com que os indivíduos ajam racionalmente e instituam, através do pacto, um poder político que os submeterá a todos, mas garantirá o seu direito de posse e sua segurança física. Abdica-se da liberdade em nome da segurança; troca-se a liberdade pela vida, enfim. 


Locke: o Estado como garantia da propriedade

John Locke também lança mão da hipótese do estado de natureza para a construção de sua filosofia política. Contrariamente a Hobbes, porém, não vê nesse estado uma guerra permanente; segundo este filósofo, o fato de os homens viverem na mais absoluta liberdade não implica em que vivessem sem leis. No estado de natureza os homens seriam governados pela lei natural da razão, sendo seu princípio básico a preservação da vida; não se sairia agredindo e matando os outros indistintamente, portanto, apenas para tirar-lhes as propriedades ou evitar um possível ataque.

Já no estado de natureza os homens estão aptos a possuir bens; de acordo com Locke, todo indivíduo já nasce proprietário de seu corpo e de sua capacidade de trabalho. Tudo aquilo que produzir, retirando ou transformando a natureza, através de seu próprio trabalho, será de sua propriedade:

          "O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos, pode dizer-se, são propriamente dele. Seja o que for que ele retire do estado que a natureza lhe forneceu e no qual o  deixou, fica-lhe misturado ao próprio trabalho, juntando-se-lhe algo que lhe pertence, e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele. Retirando-o do estado comum em que a natureza o colocou, anexou-lhe por esse trabalho algo que o exclui do direito comum de outros homens. Desde que o trabalho é propriedade exclusiva do trabalhador, nenhum outro homem pode ter direito ao que se juntou, pelo menos quando houver bastante e igualmente de boa qualidade em comum para terceiros." 15

Mas se em seu estado natural os homens, além de gozarem da plena e absoluta liberdade, podem ainda ter acesso quase ilimitado à propriedade, o que faz com que eles abandonem esse estado, instituindo a sociedade civil?

Acontece que o produto do trabalho humano e o acesso à propriedade vão se complexificando
paulatinamente; chega um momento em que há a necessidade de se arbitrar sobre esse direito, dadas as disputas que começam a surgir. Se todos são iguais, quem é o verdadeiro proprietário? Se todos são iguais, quem pode arbitrar essa questão? Se todos são iguais, como pode ser feita a justiça?

Assim, os homens reúnem-se em comunidade com o objetivo de facilitar a fruição do direito de propriedade que, mesmo possível em estado natural é incerta e insegura. Afirma o filósofo que "o objetivo grande e principal, portanto, da união dos homens em comunidade, colocando-se eles sob governo, é a preservação da propriedade." 16

O que institui a sociedade civil e o Estado para realizar a função do arbítrio e da defesa do direito à propriedade para todos é, como em Hobbes, um pacto entre os homens, entre os indivíduos que comporão a assim criada comunidade. O consentimento dos homens na instituição da comunidade, porém, difere entre os dois filósofos britânicos: para Hobbes, o contrato é um pacto de submissão que visa a instaurar uma situação contrária àquela que vigorava no estado de natureza, preservando a segurança de suas vidas; para Locke, ao contrário, o contrato apresenta-se como um pacto de consentimento em que os indivíduos, longe de submeterem-se todos a um poder comum, concordam em instituir leis que preservem e garantam tudo aquilo que eles já desfrutavam no estado de natureza. O contrato social é para Locke, a garantia dos direitos naturais, e não a criação de outros direitos 17.

Para falar sobre as características do contrato que institui a sociedade política, Locke ampara-se nas características de uma associação civil, como é o casamento 18. No casamento, dois indivíduos consentem na união e só por isso ela é possível. Também assim acontece com o Estado: ele só é possível através do consentimento de todos os indivíduos em sua instauração.

          "Sendo os homens, conforme acima dissemos, por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma  pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela(...) Quando qualquer número de homens consentiu  desse modo em constituir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela  incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e  resolver por todos." 19

Sem deter-mo-nos aqui nas formas expostas por Locke pelas quais se dá esse governo da maioria, devemos reiterar que para ele não há, na verdade, renúncia à liberdade, mas sim a instauração de uma nova modalidade dela, a liberdade civil, que não se contrapõe à liberdade natural, mas a preserva e a alarga. Preservando os direitos naturais ao torná-los políticos, o Estado não é segundo esse filósofo, um "mal necessário", mas a realização dos direitos humanos através do arbítrio do direito de propriedade, fazendo de todos felizes possuidores.



Rousseau: o Estado como promotor da "vontade geral"

O filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau pode ser visto como um opositor de Hobbes. Enquanto o este concebia o estado natural como guerra e o estado social como fonte de segurança individual, Rousseau afirmava o estado natural como fonte da liberdade e da igualdade, sendo essencialmente bom, enquanto que a sociedade política era a fonte da guerra, posto que instaurava a desigualdade entre os homens.

Em seu famoso Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1754/55), esse filósofo identifica o estado de natureza com a "idade do ouro", quando os homens eram todos livres e iguais entre si, vivendo em paz e harmonia. A origem da propriedade é também a origem da desigualdade, pois as diferenças naturais não devem ser levadas em conta, mas apenas aquela que instaura uma desigualdade de fato, que é a desigualdade social que aí se origina. A origem da propriedade é também a origem da sociedade, pois "o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo." 20

Com a propriedade, vem também o processo de acumulação de bens e, se uns acumulam, isso
implica em que outros deixem de acumular. A propriedade é fonte das desigualdades, fonte da escravidão, da ganância e da violência e também é fonte da civilização. O contrato social que institui o Estado é visto por Rousseau não como resultado da ação de todos os indivíduos, como o viam Locke e Hobbes, mas como a ação dos indivíduos ricos coagindo aos mais pobres, na tentativa de garantir para si as benesses da propriedade 21.

Rousseau antecipa, assim, a visão do Estado como um instrumento de classe que seria enunciada por Marx no século seguinte, como veremos mais adiante. Entretanto, o revolucionário filósofo não considera a instituição política como essencialmente má, defensora de interesses individuais; a sociedade não é contrária ao estado natural, como queria Hobbes e, portanto, o Estado poderia ser organizado de forma a preservar os direitos naturais e a igualdade entre os indivíduos - a que fatalmente chegaria Locke, não fosse sua defesa intransigente do direito de propriedade.

Encantado com a "idade de ouro" do estado natural, mas defensor da civilização, Rousseau dedica-se a encontrar as formas de organizar os indivíduos socialmente de modo que sejam preservados seus direitos e características naturais, de modo a que o homem não se corrompa
como nessa sociedade essencialmente má, na qual, apesar de "nascer livre, encontra-se sempre a ferros". Esse processo civilizador será examinado em Do Contrato Social.

Para que possa ser garantia da igualdade, sem alienar a liberdade humana, o pacto social deve
abranger a todos os indivíduos. Ninguém pode ficar de fora pois, nesse caso, estabelecer-se-ia já uma desigualdade que corromperia a sociedade assim instituída. Diferentemente de Hobbes, o conjunto dos indivíduos não abdica de sua liberdade em nome de um único indivíduo, ao qual se submete, mas entrega a si mesmo ao controle de um indivíduo coletivo que é formado pela união de todos os que pactuam ao firmar o contrato social.

          "Enfim, cada um dando-se a todos não se dá a ninguém e, não existindo um associado  sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se lhe cede sobre si mesmo, ganha-se o equivalente a tudo que se perde, e maior força para conservar o que se  tem.

          "Se separar-se, pois, do pacto social aquilo que não pertence a sua essência, ver-se-á que ele se reduz aos seguintes termos: 'Cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a direção suprema da vontade geral, e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo´." 23

A celebração de tal pacto dá origem a um corpo social, o Estado, que nada mais é do que a união de todos os indivíduos pactuantes num único indivíduo social; soberano aqui, não é o monarca como em Hobbes, mas o próprio Estado enquanto união dos indivíduos. Isto é, o todo é soberano com relação a cada uma das partes, todas elas iguais entre si. O filósofo prossegue:

          "Imediatamente, esse ato de associação produz, em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral e coletivo, composto de tantos membros quanto  são os votos da assembléia, e que, por esse mesmo ato, ganha sua unidade, seu eu  comum, sua vida e sua vontade. Essa pessoa pública, que se forma, desse modo, pela  união de todas as outras, tomava antigamente o nome de cidade e, hoje, o de república ou de corpo político, o qual é chamado por seus membros de Estado quando passivo, soberano quando ativo, e potência quando comparado a seus  semelhantes." 24

Deste modo, não há, em Rousseau, abdicação da liberdade para a instituição do Estado, posto que este nada mais é do que a reunião do conjunto dos indivíduos e deve ser a expressão da vontade geral, isto é, a resultante das vontades individuais no que diz respeito às questões comuns e coletivas. Como na perspectiva deste filósofo a soberania não é do governo - os ocupantes da máquina administrativa - mas do povo enquanto conjunto dos indivíduos pactuantes, não há nunca submissão individual, pois no Estado se realiza a igualdade política de cada indivíduo, assim como sua liberdade se realiza ao obedecer a leis criadas por ele mesmo que não são jamais leis de exceção impostas por outrem.



O Modelo Hegelo-Marxiano

Se o modelo jusnaturalista tinha em sua essência a oposição estado natural versus estado civil, este novo modelo, embora rompendo essa dicotomia, baseia-se numa outra oposição: sociedade civil versus sociedade política 25. Norberto Bobbio afirma, entretanto, que Hegel deve ser visto como o coroamento do jusnaturalismo, pois se entendemos esse modelo como a busca da concepção do Estado-razão, é em Hegel que ele a encontra de forma mais elaborada. Por outro lado, ele é também o maior crítico do jusnaturalismo, recolocando a questão em novos termos.

          "Com Hegel, o modelo jusnaturalista chegou à sua conclusão. Mas a filosofia de Hegel é não apenas uma antítese, mas também uma síntese. Tudo o que a filosofia política do jusnaturalismo criou não é expulso do seu sistema, mas incluído e superado (o mesmo ocorre com o conjunto dos conceitos herdados através do modelo aristotélico)." 26

O modelo hegelo-marxiano só se constituirá como verdadeira antítese ao jusnaturalismo ao incorporar, sobre a estrutura pensada por Hegel, as considerações levantadas mais tarde por Marx, que retoma a concepção de Rousseau do Estado como instrumento de dominação para a manutenção da riqueza de alguns em detrimento de muitos outros, mas tomando essa característica como essencial e inerente ao conceito mesmo de Estado e não como uma corrupção contingente do conceito, como para o filósofo genebrino.

A primeira grande diferença de Hegel com os jusnaturalistas diz respeito à história: enquanto os filósofos que pensavam o Estado como resultado de um pacto social o estado natural era uma hipótese de trabalho que se colocava fora da história e para além de qualquer perspectiva histórica, o que equivale a afirmar que o Estado não tem história ou, pelo menos, que a história não é fundamental para sua elucidação conceitual, para o filósofo alemão o Estado só pode ser
compreendido em sua perspectiva histórica, ela é a chave para sua apreensão. Numa das passagens da Filosofia do Direito, ele critica essa perspectiva de criticar a realidade através da
concepção de um "Estado Ideal":

          "(...) conquistando o poder, estas abstrações produziram por um lado o espetáculo  mais grandioso jamais visto pela história humana: recomeçar a priori, e pelo pensamento, a constituição de um grande Estado real, subvertendo tudo o que existe e é dado, querendo dar-lhe como fundamento um sistema social imaginado; de outra parte, como não são senão abstrações sem Idéia, engendraram, nesta tentativa, os  acontecimentos mais horríveis e os mais cruéis." 27

Contrariando a Rousseau e aos jusnaturalistas em geral, Hegel considera não que os indivíduos constituam o Estado, mas que, ao contrário, os indivíduos só são possíveis no e através do Estado:

          "O Estado é 1) primeiramente a sua formação interna, como desenvolvimento que se refere a si mesmo - o direito interno dos Estados ou a Constituição. É depois 2) o  indivíduo particular, e por conseguinte em relação com outros indivíduos particulares - o que dá lugar ao direito externo dos Estados. Mas 3) esses espíritos particulares são  apenas momentos no desenvolvimento da idéia universal do espírito na sua realidade; e esta é a história do mundo, ou história universal."28

Percebe-se, pois, que para Hegel a racionalidade está no próprio Estado, que "é a substância ética consciente de si" 29 e condição da racionalidade dos indivíduos e não na decisão destes de abdicar do estado de natureza instituindo a sociedade política. Feitas estas considerações, podemos passar para a questão central deste modelo que é, como já foi dito, a oposição sociedade civil versus Estado (ou sociedade política).

Hegel é o primeiro filósofo da política a fazer esta distinção, na Filosofia do Direito, onde demonstra que uma coisa é a esfera social que trata dos interesses comunitários porém privados, outra é a esfera social que trata dos interesses comunitários e comuns a todos os indivíduos. Assim Gildo M. Brandão define essas duas esferas na perspectiva de Hegel:

          "A sociedade civil (Bürgerliche Gesellschaft) é definida como um sistema de           carecimentos, estrutura de dependências recíprocas onde os indivíduos satisfazem as suas necessidades através do trabalho, da divisão do trabalho e da troca; e asseguram a defesa de suas liberdades, propriedades e interesses através da administração da justiça e das corporações. Trata-se da esfera dos interesses privados,  econômico-corporativos e antagônicos entre si.

          "A ela se contrapõe o Estado político, isto é, a esfera dos interesses públicos e universais, na qual aquelas contradições estão mediatizadas e superadas. O Estado não é, assim, expressão ou reflexo do antagonismo social, a própria demonstração  prática de que a contradição é irreconciliável, como dirá mais tarde Engels, mas é esta divisão superada, a unidade recomposta e reconciliada consigo mesma. A marca distintiva do Estado é esta unidade, que não é uma unidade qualquer, mas a unidade  substancial que traz o indivíduo à sua realidade efetiva e corporifica a mais alta expressão da liberdade."30

A concepção marxiana desta oposição fundamental aparece de forma bastante clara no prefácio à obra que seria o germe de O Capital, a Contribuição à Crítica da Economia Política:

          "Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como  formas de Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida, cuja totalidade foi resumida por Hegel sob o nome de 'sociedade civil' (Bürgerliche Gesellschaft), seguindo os ingleses e franceses do século XVIII; mas que a anatomia da sociedade burguesa (Bürgerliche Gesellschaft) deve ser procurada na Economia Política (...): na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.  O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social,  político e espiritual." 31

Assim, a sociedade civil é anterior e determinante da estrutura do Estado: a política depende da economia de uma sociedade, na clássica formulação de Marx. Invertendo a concepção de Hegel, de que o Estado é determinante da história, Marx afirma que é a história da produção social dos homens, ao contrário, que determina a estrutura do Estado. Buscando na história da humanidade, Marx perceberá que em momento algum o Estado foi o representante dos interesses coletivos, nem tampouco o promotor de uma "vontade geral"; ao contrário, o Estado foi sempre aquilo que já havia denunciado Rousseau, um instrumento nas mãos de um determinado grupo social, usado para conquistar e manter determinados privilégios.

Esta concepção marca o divórcio da sociedade civil com o Estado: este está acima dela e, embora por ela determinado, tem um grau de independência que lhe permite fixar regras e leis de modo a perpetuar essa mesma sociedade civil, mantendo os privilégios e infortúnios desta dada organização social. A liberdade é, pois, impossível dentro dos limites do Estado. Contrário a Rousseau e selando o rompimento com o jusnaturlismo, Marx vê no Estado uma forma necessária apenas para as organizações sociais de exploração e afirma que apenas a extinção do Estado poderá dar origem à verdadeira história humana, o reino da liberdade sonhado por Rousseau. A realização da sociedade humana passa, pois, pela destruição do Estado, e não por sua instituição, como pensavam os filósofos jusnaturalistas.

Concluindo, o conceito de Estado moderno é resultado de um longo processo de elaboração
filosófica que acompanha a constituição histórico-social do Estado-nação, da dissolução do Estado teológico medieval até o pretenso Estado democrático de nossos dias, passando pelas monarquias absolutas e pelas revoluções liberais. Da busca de um Estado-razão pelos jusnaturalistas à concepção marxiana de um Estado como superestrutura da organização econômica da sociedade, passou-se do conceito de um Estado "instituidor-instituído" da sociedade para o conceito de um Estado que não se identifica diretamente com a sociedade, sendo mesmo um reflexo dela.

A relação dialética de mútua influência do Estado com a sociedade civil é exposta de forma muito simples e clara pelo economista Luis Carlos Bresser Pereira:

          "Compreendido nestes termos, o Estado é, assim, um sistema de poder organizado que se relaciona dialeticamente com outro sistema de poder difuso mas efetivo – a sociedade civil. A sociedade civil é, em última análise, a forma pela qual a classe dominante (ou as classes dominantes) se organiza(m) fora do Estado para controlá-lo  e pô-lo a seu serviço. A sociedade civil não se confunde portanto com a população  ou com o povo. O Estado exerce seu poder sobre a sociedade civil e sobre o povo. Por outro lado, a sociedade civil é fonte de poder do Estado e ao mesmo tempo estabelece limites e condicionamentos para o exercício desse poder." 32

As relações de força no jogo de poder entre Estado e sociedade civil são melhor delimitadas mais adiante:

          "O Estado se democratiza na medida em que a sociedade civil amplia suas bases e eventualmente inclui nelas os trabalhadores e portanto todo o povo. É também condição para a democratização do Estado que este fique sob controle da sociedade civil assim ampliada e não vice-versa. Na realidade ocorrerá um processo dialético entre a sociedade civil e o Estado, um controlando o outro e vice-versa. Ao mesmo tempo em que nas sociedades capitalistas modernas amplia-se a base da sociedade  civil, com uma participação crescente, ainda que nitidamente subordinada, dos trabalhadores, amplia-se também o próprio aparelho do Estado. E ao ampliar-se o  aparelho do Estado, tende ele a ganhar ou pretender ganhar autonomia em relação à  sociedade civil." 33

          



2. O Estado Capitalista

O Estado moderno, cuja conceituação vimos explanando, cristaliza-se historicamente no Estado capitalista; não seria exagero afirmar que a busca iniciada por Maquiavel de descrever a política como ela realmente é, em oposição às utopias normativas clássicas que remontam à Aristóteles e a Platão, são esforços no sentido de conceituar esse Estado nascente que se desenvolve paulatinamente. Boa parte desta busca seria sistematizada por Marx no século dezenove com suas análises econômicas e políticas do capitalismo. Como as conceituações filosófico-políticas não são construídas no vazio das abstrações puras, mas em relação direta com as condições materiais experimentadas, traçaremos agora algumas das características que o Estado capitalista assume ao longo da história.

O Estado capitalista, desde suas formas mais arcaicas, constitui-se a partir e através da derrocada do Estado feudal. Como fruto e instrumento de uma nova organização sócio-econômica, abandona e mesmo contrapõe-se a muitas das características daquela estrutura política que ele vem a substituir; por outro lado, muitas das características dos antigos sistemas políticos persistem, mascaradas ou não, na estrutura do Estado capitalista. Essa característica já era percebida por Tocqueville ainda na primeira metade do século dezenove, quando ele afirmava que as sociedades democráticas modernas substituíam a sociedade hierárquica antiga, mas que nem por isso substituíam ou aboliam a hierarquia mesma. Isso pode ser notado, por exemplo, em O Antigo Regime e a Revolução, quando ele fala da situação das transformações sociais e políticas na Inglaterra.

          "Na Inglaterra, onde à primeira vista se poderia dizer que a antiga constituição da  Europa se encontra ainda em vigor, ocorre a mesma coisa. Se esquecermos os velhos  omes e descartarmos as velhas formas, perceberemos que desde o século XVII o  sistema feudal fora aí abolido em sua substância: as classes que se mesclam entre si,  uma nobreza apagada, uma aristocracia aberta, a riqueza transformada em poder, igualdade perante a lei, igualdade dos encargos, liberdade de imprensa e debates públicos. Todos princípios novos e desconhecidos pela sociedade da Idade Média.  Ora, foram precisamente essas novidades que, introduzidas lenta e habilmente num  velho corpo, o reanimaram sem o risco de dissolvê-lo e, embora mantendo suas  formas antigas, deram-lhe um novo vigor. No século XVII, a Inglaterra já é, no seu todo, uma nação moderna, com a peculiaridade de haver preservado, como se fossem embalsamados, alguns restos da Idade Média." 34

Embora seja um aristocrata que argumenta no sentido de resgatar determinados privilégios abolidos durante a Revolução em França, a argúcia de Tocqueville identifica que as mudanças ainda que profundas, rompem com uma certa estrutura, mas não com a estrutura mesma; isto é, o Estado muda de mãos e de feições, mas continua Estado e, portanto, atrelado a uma certa estrutura política que deve privilegiar a dominação, seja ela qual for. Essa mudança no tipo de dominação - absolutista ou democrática, mas ainda dominação - é melhor tratada ao longo de uma outra obra do filósofo francês, A Democracia na América. A citação é um pouco longa, mas necessária para que seja possível acompanhar a estrutura de sua argumentação:

          "Se quisesse imaginar com que traços novos o despotismo poderia produzir-se no  mundo, veria uma multidão incontável de homens semelhantes e iguais, que se movem  sem cessar para alcançarem pequenos e vulgares prazeres, de que enchem a própria alma. Cada um deles, separado dos outros, é como que estranho ao destino de todos  eles: seus filhos e amigos particulares formam, para ele, toda a espécie humana;  quanto ao restante de seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os, mas não os sente; só existe em si mesmo e para si mesmo e, se lhe resta ainda uma família, pode-se dizer que não tem mais pátria.

          "Acima desses homens erige-se um poder imenso e tutelar que se encarrega sozinho de assegurar-lhes os prazeres e de velar-lhes a sorte. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e suave. Assemelhar-se-ia ao poder paterno, e, com ele, teria como objetivo preparar os homens para a idade viril; mas, ao contrário,  procura mantê-los irrevogavelmente na infância; tem prazer em que os cidadãos se  regozijem, desde que não pensem em outra coisa.(...)"

          "Após ter assim tomado em suas mãos poderosas cada indivíduo e após ter-lhes dado a forma que bem quis, o soberano estende os braços sobre toda a sociedade;  cobre-lhe a superfície com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e  uniformes, através das quais os espíritos mais originais e as almas mais vigorosas não conseguiriam aparecer para sobressair na massa; não dobra as vontades, amolece-as,  inclina-as e as dirige; raramente força a agir, mas opõe-se freqüentemente à ação; não destrói, impede o nascimento; não tiraniza, atrapalha, comprime, enerva, arrefece,  embota, reduz, enfim, cada nação a nada mais ser que uma manada de animais tímidos e industriosos, cujo pastor é o governo." 35

Tocqueville demonstra, assim, que mesmo o Estado que se coloca como democrático e igualitário é ainda uma forma de dominação; quiçá uma dominação ainda mais terrível, por ser mais velada e estar apoiada em características bastante profundas do ser humano, como a fuga da responsabilidade: se existe algo ou alguém que nos protege e faz por nós, sem que tenhamos - aparentemente - que nos submeter, por que não aceitar de bom grado? É certo que o aristocrata francês está falando contra o princípio da igualdade, que do seu ponto de vista seria o responsável por essa uniformização que possibilitaria tal tipo de dominação; atirando num alvo, acerta, porém, em outro: o Estado moderno "democrático" continua sendo Estado, afastado da sociedade e instrumento de dominação, o que equivale a dizer que a igualdade por ele criticada é apenas jurídica, não existindo de fato, pois se há uma classe de políticos e/ou funcionários que está acima da sociedade, já existe uma diferença de classes e está sepultada, na prática, qualquer perspectiva de igualdade. Seria preciso, porém, ainda um par de décadas para que Marx denunciasse a farsa da igualdade da democracia capitalista, apesar dos inegáveis avanços políticos que ela representa com relação a formas políticas anteriores.

É importante salientar, voltando à nossa linha de raciocínio, que mesmo no Estado Absolutista que, a rigor, é ainda uma formação pré-capitalista, já estão presentes características que culminariam nessa forma mais desenvolvida do Estado moderno. Para tocar em dois pontos apenas, mas que  são fundamentais, devemos lembrar que Hobbes, um dos principais teóricos do Absolutismo advogava que a constituição do Estado devia-se a uma busca de segurança vital e segurança do direito de propriedade, o que é já um prenúncio dos interesses capitalistas que tomavam forma aos poucos e ganhavam cada vez mais importância social.

Um segundo ponto, ainda mais fundamental, é que o processo analisado por Marx no livro primeiro d' O Capital no capítulo denominado A Chamada Acumulação Primitiva, que seria a base sobre a qual se ergueria o sistema capitalista de produção, acontece principalmente durante a existência do Estado Absolutista, principalmente durante o Mercantilismo e a Revolução Comercial.

A instituição do Estado capitalista traz uma inovação no campo econômico em relação aos sistemas anteriores: a apropriação do excedente econômico pela classe dominante não se dá mais através da utilização direta da força do Estado, através de tributos ou da escravização, mas sim através dos mecanismos do mercado, via aquela sutil violência expropriadora que Marx descobriu e a qual chamou mais-valia. É novamente Bresser Pereira quem vem em nosso auxílio:

          "A mais-valia é apropriada pelo capitalista através da troca de bens e serviços de acordo com seus respectivos valores. Se toda mercadoria tem seu valor correspondente à quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-la, e se no capitalismo o trabalho também é uma mercadoria como qualquer outra, as leis do mercado indicam que se deve pagar pelo trabalho apenas o correspondente ao custo de sua reprodução social. O preço da mercadoria força de trabalho, ou seja, o salário, não depende do que o trabalhador produz, mas de seu custo de reprodução.  Logo, basta ao capitalista escolher bens para serem produzidos que tenham uma quantidade de trabalho neles incorporada maior do que o respectivo salário para que  se produza uma mais-valia, depois de todos terem sido pagos exatamente de acordo  com os respectivos valores. Desta forma, o capitalista, baseado na propriedade dos  meios de produção e na redução dos trabalhadores à condição de trabalhadores  assalariados, apropria-se da mais-valia, sob a forma de lucros, juros, aluguéis e, ao  mesmo tempo, pode afirmar que todas as trocas realizadas no mercado foram feitas  exatamente de acordo com os respectivos valores. A violência direta para apropriação do excedente, com a utilização do poder do Estado, tornava-se  desnecessária." 36

É essa peculiaridade intrínseca e particular do sistema capitalista de produção que permite a gênese de um novo Estado, em substituição ao Estado Absolutista que havia garantido as condições necessariamente totalitárias que permitiram a primitiva acumulação de capital sem a qual o capitalismo não teria como constituir-se em modo de produção socialmente dominante.

O novo Estado que surge é o Liberal, aquele que, em oposição aos anteriores, não precisaria exercer um forte controle sobre a economia, posto que o controle era anterior à ação mesma do Estado. Assumindo o poder através deste Estado Liberal e controlando-o por mais de um século, a burguesia tem condições de disseminar a ideologia do não-intervencionismo, da queda das barreiras econômicas e da des-regulamentação, como forma de abrir caminho para suas atividades crescentes e seu voraz apetite.

Politicamente, o novo Estado pode assumir também uma feição muito mais democrática, em consonância com seus objetivos econômicos, posto que o controle da economia e da expropriação do excedente era regulado internamente e o aparelho repressivo estatal precisaria ser acionado apenas em casos extremos. Nesse momento do desenvolvimento do Estado Capitalista, a força do Estado estava tremendamente diminuída, se comparada com a força da sociedade civil, nos termos aqui já expostos.

O crescimento das empresas, operadoras básicas do mercado, com a conseqüente formação de monopólios e oligopólios leva a uma crise no poder de auto-regulamentação do mercado, sendo necessário que o Estado voltasse a intervir na economia para regular o mercado; aparece então uma nova feição do Estado Capitalista, marcando uma nova fase, a do Estado Regulador. Bresser Pereira 37 afirma que países que tiveram retardada sua revolução industrial, como Japão, Rússia e Alemanha, nem chegaram a conhecer o Estado Liberal, assumindo a plenitude do Capitalismo com e através do Estado Regulador. Este alcançaria, porém, mesmo os países tradicionalmente liberais, apesar das resistências. Nessa nova feição do Estado Capitalista, cresce enormemente o poder e a atuação do aparato político:

          "Quando se fala em capitalismo monopolista do Estado ou simplesmente capitalismo de Estado, quer-se referir a uma formação social dominantemente capitalista, mas na qual o Estado adquiriu um papel fundamental, não apenas no campo político, mas também no campo econômico. O Estado abandonou o laissez faire para se transformar em órgão regulador e motor da economia. Através do planejamento econômico, da política econômica e das atividades empresariais diretas, o Estado, em sua função reguladora, substitui em parte o mercado, definindo preços, salários e taxas de juros, tributando salários e ordenados e lucros, estabelecendo prioridades para os investimentos privados, orientando o consumo através de taxas diferenciadas; em sua função motora realiza grandes despesas, e torna-se ele próprio empresário, responsável por ampla parcela da acumulação de capital, na medida em que implanta  um poderoso setor produtivo estatal." 38

Esse crescimento do poder e atuação do Estado não implica necessariamente, porém, numa diminuição do poder da sociedade civil, que continua forte; constrói-se todavia, novo equilíbrio de forças, diverso daquele do Estado Liberal.

Essas duas tipologias do Estado Capitalista (Liberal e Regulador), complementadas por uma terceira que se desenvolveu nos países de economia dependente - os subdesenvolvidos - e, segundo Pereira, também nos países do Leste com o malogro da revolução socialista, a do Estado Tecnoburacrático, caracterizada pela constituição de uma classe administrativa cooptada da burguesia que assume as funções políticas do Estado e as funções econômicas da acumulação do capital, constituem um panorama geral da atualidade do Estado moderno 39.

Assistimos hoje a um certo impasse nestas feições do Estado, com uma nova onda de discussões em torno de um neo-liberalismo, arauto de não ingerência estatal na economia, ao qual se contrapõem os defensores da função regulamentadora do Estado. Independentemente da feição específica que assuma, porém, seja ela mais ou menos "liberalizante", o Estado capitalista não se afasta de suas características básicas que, como já alertávamos juntamente com Tocqueville desde o início, estavam também já presentes nas organizações político-estatais anteriores. 


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