Felicidade e Virtude em Aristóteles
Como,
ao que parece, há muitos fins e podemos buscar alguns em vista de outros: por
exemplo, a riqueza, a música, a arte da flauta e, em geral, todos aqueles fins
que podem denominar-se instrumentos, é evidente que nenhum desses fins é
perfeito e definitivo por si mesmo. Mas o sumo bem deve ser coisa perfeita e
definitiva. Por conseguinte, se existe uma só e única coisa que seja definitiva
e perfeita, ela é precisamente o bem que procuramos; e se há muitas coisas
deste gênero, a mais definitiva entre elas será o bem. Mas, em nosso entender,
o bem que apenas deve buscar-se por si mesmo é mais definitivo que aquele que
se procura em vista de outro bem; e o bem que não deve buscar-se nunca com
vista noutro bem é mais definitivo que os bens que se buscam ao mesmo tempo por
si mesmos e por causa desse bem superior; numa palavra, o perfeito, o
definitivo, o completo, é o que é eternamente apetecível em si, e que nunca o é
em vista de um objecto distinto dele.
- Eis aí precisamente o carácter que parece ter a felicidade; buscamo-la por ela
e só por ela, e nunca com mira em outra coisa. Pelo contrário, quando buscamos
as honras, o prazer, a ciência, a virtude, sob qualquer forma que seja,
desejamos, indubitavelmente, todas essas vantagens por si mesmas; pois que, independentemente
de toda outra consequência, desejaríamos cada uma delas; todavia, desejamo-las
também com mira na felicidade, porque cremos que todas essas diversas vantagens
no-la podem assegurar; enquanto ninguém pode desejar a felicidade, nem com mira
nestas vantagens, nem, de maneira geral, com vista em algo, seja o que for,
distinto da felicidade mesma.
(...) Todavia, ainda convindo connosco em que a felicidade é, sem contradita, o
maior dos bens, o bem supremo, talvez haja quem deseje conhecer melhor a sua
natureza.
O meio mais seguro de alcançar esta completa noção é saber qual é a obra
própria do homem. (...) Viver é uma função comum ao homem e às plantas, e aqui
apenas se busca o que é exclusivamente especial ao homem; é por isso necessário
pôr de lado a vida de nutrição e de desenvolvimento. Em seguida vem a vida da
sensibilidade, mas esta, por sua vez, mostra-se igualmente comum a todos os
seres - o cavalo, o boi, e em geral a todos os animais, tal como ao homem.
Resta, portanto, a vida activa do ser dotado de razão. Mas neste ser deve
distinguir-se a parte que não possui directamente a razão e se serve dela para
pensar. Além disso, como esta mesma faculdade da razão se pode compreender num
duplo sentido, devemos não esquecer que se trata aqui, sobretudo, da faculdade
em acção, a qual merece mais particularmente o nome que a ambas convém. E assim
o próprio do homem será o acto da alma em conformidade com a razão, ou, pelo
menos, o acto da alma que não pode realizar-se sem a razão. (...) Mas o bem, a
perfeição para cada coisa, varia segundo a virtude especial dessa coisa. Por
conseguinte, o bem próprio do homem é a actividade da alma dirigida pela
virtude; e, como há muitas virtudes, será a actividade dirigida pela mais alta
e a mais perfeita de todas. Acrescente-se também que estas condições devem ser
realizadas durante uma vida inteira e completa, porque uma só andorinha não faz
a Primavera, nem um só dia formoso; e não pode tão-pouco dizer-se que um só dia
de felicidade, nem mesmo uma temporada, bastam para fazer um homem ditoso e
afortunado.
Como,
ao que parece, há muitos fins e podemos buscar alguns em vista de outros: por
exemplo, a riqueza, a música, a arte da flauta e, em geral, todos aqueles fins
que podem denominar-se instrumentos, é evidente que nenhum desses fins é
perfeito e definitivo por si mesmo. Mas o sumo bem deve ser coisa perfeita e
definitiva. Por conseguinte, se existe uma só e única coisa que seja definitiva
e perfeita, ela é precisamente o bem que procuramos; e se há muitas coisas
deste gênero, a mais definitiva entre elas será o bem. Mas, em nosso entender,
o bem que apenas deve buscar-se por si mesmo é mais definitivo que aquele que
se procura em vista de outro bem; e o bem que não deve buscar-se nunca com
vista noutro bem é mais definitivo que os bens que se buscam ao mesmo tempo por
si mesmos e por causa desse bem superior; numa palavra, o perfeito, o
definitivo, o completo, é o que é eternamente apetecível em si, e que nunca o é
em vista de um objecto distinto dele.- Eis aí precisamente o carácter que parece ter a felicidade; buscamo-la por ela e só por ela, e nunca com mira em outra coisa. Pelo contrário, quando buscamos as honras, o prazer, a ciência, a virtude, sob qualquer forma que seja, desejamos, indubitavelmente, todas essas vantagens por si mesmas; pois que, independentemente de toda outra consequência, desejaríamos cada uma delas; todavia, desejamo-las também com mira na felicidade, porque cremos que todas essas diversas vantagens no-la podem assegurar; enquanto ninguém pode desejar a felicidade, nem com mira nestas vantagens, nem, de maneira geral, com vista em algo, seja o que for, distinto da felicidade mesma.