O papel da angústia em Heidegger e Kierkegaard
Mariah de Olivieri
Mariah de Olivieri
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A obra fundamental de Heidegger que aponta
para a questão da angústia é Ser e Tempo (1989).
Nesta obra, ele aborda a questão do Ser e, sobretudo, instaura uma nova
abordagem da metafísica, onde o indivíduo, abandonado por
Deus, busca esclarecer por si mesmo o que é o Ser. Heidegger estabelece a
distinção entre Ser e Ente; segundo ele, o homem não é o Ser, mas aquele que
o interroga. Assim é que o indivíduo é para si mesmo um Ente, ou seja, uma
existência concreta, que tem o privilégio de questionar o Ser: “É o homem
que faz advir o ser” (HUISMAN, 2001, p.102).
O Dasein[1] é a própria possibilidade
para o indivíduo de interrogar o Ser, é o campo de manifestação do Ser.
Heidegger afirma que é a angústia que possibilita ao indivíduo o encontro com
o Ser, onde nada está pré-determinado, onde o indivíduo tem o poder de
realizar o seu destino. A angústia é a inquietação do indivíduo frente às
questões do Ser; este sentimento descortina o abismo do nada, e possibilita
ao indivíduo escutar no profundo do fundo de si, a sua verdade:
Enquanto possibilidade de ser da pre-sença,
a angústia, junto com a própria pré-sença que nela se abre, oferece o solo
fenomenal para a apreensão explícita da totalidade originária da pre-sença.
Esse ser desentranha-se como cura (HEIDEGGER, 1988, p. 245).
Por sua vez, Gama estabelece que:
Então, o “encontrar-se aí” da angústia
revela, pois, o modo de ser do Dasein: ele é pura finitude e
fragilidade, falta-lhe um fundamento, um sentido, uma certeza sustentada por
um ser transcendente (GAMA, 2002, p.125).
Portanto, Heidegger define a angústia como a
própria condição humana, a qual tem um valor ontológico,
porque revela a apreensão dolorosa da inevitabilidade da
existência. Heidegger não considera a angústia uma escolha do
indivíduo que quer evoluir enquanto ser, e sim como um fato inevitável da
vida humana. Neste sentido, pode-se dizer que:
Na angústia, diz-nos Heidegger, acompanhando
Kierkegaard, o que nos ameaça não está em parte alguma. Não estando em parte
alguma, a ameaça entretém relação com algo que não é intramundano” [...] É
afinal o Dasein mesmo que nos angustia, porque já sem a
proteção do cotidiano, revelando-se, então, nesse sentimento; o poder-ser
livre, a possibilidade de escolha [...] (NUNES, 2004, p.19).
Em se tratando de subjetividade, Heidegger
se assemelha a Kierkegaard, concordando que o indivíduo deve assumir a
responsabilidade por sua construção enquanto indivíduo, e individualidade,
despindo-se dessa maneira de tudo o que lhe foi imposto: dogmas,
preconceitos, entre outros; enfim, tudo o que leva o indivíduo à não ser ele
mesmo, isto é, um indivíduo autêntico, um indivíduo único. Como afirma
Heidegger, o indivíduo é em si mesmo sua própria luz, um
projeto nunca acabado, tendo sempre que se construir. Assim, urge a
necessidade de que, através da angústia, o indivíduo se desconstrua,
para se reconstruir enquanto indivíduo.
Angústia e cuidado, vistos no horizonte da
temporalidade, constituem o núcleo da concepção heideggeriana de existência.
A angústia pode ser compreendida como a experiência original do tempo humano,
o tempo vivido, base da própria existência (GAMA, 2002, p.125).
Neste processo de busca em alcançar sua
individualidade, o restado para o indivíduo é uma profunda perturbação, que o
leva à angústia, pois afinal, ele questiona sem saber exatamente o quê. Neste
sentido a tentativa de erros e acertos, colocam o indivíduo, no labirinto da
existência, onde a busca de si e a fuga da angústia dirigem
o Ser para o caminho da arte. Heidegger estabelece que a salvação e a saída
para angústia se encontram na arte. A arte é de acordo com Heidegger mais
verdadeira e de maior valor que o saber e as “verdades”
contidas nele, é a forma do Ser se revelar, é a própria
revelação do Ser, é o caminho do indivíduo na busca de si
mesmo. É na arte que se encontram as possibilidades não
vividas, que animam a própria vida. A verdade do Ser em Heidegger se alcança
na arte; quando mencionamos arte, enfatizamos que aquela que lhe tocou mais
profundamente foi a poesia.
O exclusivo fardo que o indivíduo tem de
carregar é o da própria existência, na qual ele vive sem ter
escolhido nascer. Assim, diferentemente de Kierkegaard, para o qual a
angústia é um sentimento benéfico e que deposita no indivíduo e em sua busca
por si mesmo e no “salto da fé”, toda a sua esperança, para Heidegger a
existência, é a prova cabal do desamparo humano, no qual o
indivíduo se acha mergulhado, contra a sua vontade.
O indivíduo deve vivenciar a
existência e existir, não porque esta foi uma escolha voluntária e sim,
porque é “obrigado” pela existência a cumprir este “papel”. Para
apropriar-se deste processo de vivenciar a existência e existir, para
torná-lo viável, o indivíduo necessita de estrutura; a esta estrutura
Heidegger chama de cuidado[2]. O cuidado brota
a partir da angústia sentida pelo Ser, no momento em que ele é arremessado ao
mundo, contra o seu desejo. Angústia e cuidado[3] são o cerne da concepção
heideggeriana de existência e subsídios fundamentais da estrutura do Dasein;
a este respeito, Gama comenta, citando Marleau-Ponty:
A temporalidade é o fundamento do cuidado
enquanto subjetividade e traz a compreensão do tempo enquanto sujeito e do
sujeito enquanto tempo, esta é ainda, o sentido de ser do Dasein,
pois o mesmo, só é revelado, em sua íntima relação com o tempo. O Dasein em
sua empreitada de Ser, está atrelado às possibilidades do tempo e, deste, a
única irremediável e inescapável é a morte. O Dasein em seu
desamparo existencial entregue só a si mesmo é, no entanto um “ser de
possibilidades” e não possui outro fundamento que não seja ele próprio, em
sua frágil e desamparada condição humana, um ser finito (GAMA, 2002, p. 124).
Em contrapartida, Kierkegaard compreende a
angústia como a possibilidade da liberdade, o salto sobre
o abismo, considerando-a como a grande libertadora. Heidegger
apenas visualiza a possibilidade de liberdade na morte do indivíduo, em sua
finitude. Podemos considerar Heidegger próximo a Kierkegaard quanto à questão
da existência, pois, de acordo com Heidegger, esta é um projeto individual e
inacabado, um projeto por concluir. Porém, é certo o traço realista e pouco
otimista de Heidegger, onde a angústia não é enfrentada pelo “salto” na fé,
nem se origina na fé; a angústia para Heidegger é depois do
salto, quando o indivíduo já está em queda livre, rumo ao
abismo.
Observamos em Heidegger uma indeterminação
quanto ao lugar onde se origina a angústia que, segundo ele, é inteiramente
indeterminado, ou, em suas palavras “O com que da angústia é inteiramente
indeterminado tanto quanto o mundo” (HEIDEGGER, 1989, p.250), não vindo de
dentro ou de fora e que não está em nenhum lugar e, no entanto, é
onipresente. Em última instância, a angústia é o medo da vida, pois o Dasein é
jogado diante de sua liberdade, para “assumir” ou não suas “possibilidades”.
Aqui, se nota mais uma aproximação de Heidegger com Kierkegaard, que já se
referia à angústia como a vertigem da liberdade, angústia esta
que também para Heidegger, é angústia de viver, a qual só termina com a
morte.
Heidegger afirma que a liberdade total da
existência e suas contingências, só advêm no dia em que o indivíduo morre;
assim, em sua morte, o indivíduo deve assumi-la enquanto fim absoluto e
radical de toda a sua vida. Heidegger afiança que só a morte é para o
indivíduo autêntico, o passaporte à liberdade e esta é a única coisa
que ele possui propriamente, pois só sente angústia quem está vivo; este não
é um problema dos falecidos.
Isto significa que a angústia se origina do
próprio “ser-no-mundo” ou do mundo como tal. A angústia não é causada por um
“ente intramundano”, ela é simplesmente a afirmação de uma situação imutável
(estar aí “jogado” na existência), situação essa além da qual nada existe.
Estamos cientes que, para Heidegger, a existência do indivíduo nunca está
realizada, estando sempre em jogo e sempre por se fazer – isto significa que
ela é “cuidado”, é “tarefa de ser”.
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Teste
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